Químico aposentado preparou dossiê com todo o andamento do projeto de um Canal Extravasor no Rio Caí, desde a década de 1950 até os dias atuais, e tem convicção da viabilidade da obra.
PROJETOS
O técnico químico aposentado João Luiz Pires Boos reuniu documentos que comprovam a preocupação com as conseqüências das cheias do Rio Caí desde meados do Século passado. Comerciantes que utilizavam o rio para escoamento das mercadorias já manifestavam suas queixas quanto aos prejuízos que as constantes enchentes causavam aos negócios.
A cheia histórica de 1941 – quando a água atingiu 6,97m acima do nível normal – foi o ponto de partida das reclamações, que uma década depois levaram o então prefeito Hélio Alves de Oliveira a pedir um estudo sobre a questão. Era a primeira vez que o assunto era tratado em âmbito governamental. A intenção do prefeito, porém, esbarrou no Legislativo da época. “Os vereadores não aprovaram a liberação das verbas”, relembra o ex-funcionário da Prefeitura, Luis Argenti Pereira, que acompanhou todo o processo, transportando documentos e mantendo contato com os engenheiros responsáveis.
Na década de 1970, um estudo financiado pelo governo alemão apresentou algumas alternativas para as enchentes. Além de um canal extravasor, o projeto previa diques de contenção e comportas, que fariam o controle da passagem da água no retorno ao rio. Outra alteração importante seria a mudança de local do porto da cidade, que seria reconstruído no local onde atualmente está o balneário Afonso Kunrath. Esta obra manteria o nível da água regulada, na parte do rio que banha o centro da cidade. O alto custo do projeto, porém, acabou sepultando as pretensões de controlar as cheias do Rio Caí.
Em setembro de 1982, o então prefeito Ivan Zimmer encaminhou correspondência ao Ministro do Interior, Mario Andreazza, solicitando que o projeto alemão fosse revisto. As reivindicações foram endossadas em 1987 pelo deputado federal Constituinte Hilário Braun, que encaminhou seu pedido para Ronaldo da Costa Couto, então Ministro do Interior.
Em junho de 1989, uma reunião em São Sebastião do Caí, reunindo prefeitos dos municípios banhados pelo Rio Caí, deu nova esperança para o projeto. O engenheiro Wilson Ghignatti, diretor do DNOS (Departamento Nacional de Obras e Saneamento, extinto pelo ex-presidente Fernando Collor), afirmou na época que as obras poderiam levar cerca de cinco anos. Bastaria “um empurrão político”, de acordo com um documento da época. A empresa STE é contratada para avaliar o projeto alemão e complementá-lo. Com o fechamento do DNOS o projeto é abandonado pelo Governo.
A PESQUISA DE BOOS
Em 1996, o então assessor do Deputado Estadual Paulo Azeredo, João Luiz Boos, ouvindo a Rádio América, interessou-se pelo assunto tratado por José Alfredo Schmitz: construção de um canal de desvio para aliviar as cheias do Rio Caí. Assim que pôde, Boos procurou o radialista, e encontrou ali alguém para compartilhar a preocupação com as enchentes. “Desde que vim para Montenegro, na década de 80, acompanho com interesse o problema das enchentes que assolam a cidade”, relata Schmitz, atualmente exercendo mandato de vereador pelo PPS.
Contando com a ajuda de amigos e engenheiros ligados ao serviço público, Boos consegue recuperar o projeto elaborado pelo DNOS. “Ao receber, do amigo Rogério Santiago, os quatro volumes com as folhas amareladas e carcomidas pelo tempo, fiquei estarrecido com a grandeza de informações minuciosas daquele projeto que esteve prestes a ser iniciado em nossa cidade”, recorda o químico.
O engenheiro João Martins, da empresa STE, vencedora da licitação do DNOS, atende Boos, e esclarece todas as dúvidas existentes. “O João nos avisou que havia outra licitação em andamento, mas que a STE não iria participar”, lembra João Luiz Boos.
Schmitz sugere a Boos uma alternativa aos projetos apresentados até então: um canal, na altura do Morro da Mariazinha, com cerca de dois quilômetros de comprimento, construído sobre a caixa do rio. Assim, só receberia água quando houvesse cheias, desviando parte das águas, e não as represando.
Para tomar pleno conhecimento do assunto, Boos realiza pesquisas, entrevista engenheiros e faz levantamentos fotográficos. “Fiz tudo por minha conta, contratei até avião para fazer as fotos aéreas”, lembra. Ele descobre, durante a pesquisa, que do outro lado do rio, em território de Capela de Santana, há uma lavoura de arroz, que foi notificada pela Justiça por ter construído diques irregulares, além de desmatar a vegetação ciliar, ferindo a Lei Ambiental. O processo corre no Fórum de Portão e está em fase de definição. “Foram feitos diques com mais de um metro de altura, e isto acaba empurrando a água das cheias para Montenegro”, afirma.
O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Caí, através de seu secretário executivo Ricardo Süffert, alia-se a Boos na luta pelo projeto, no início do novo Século. Süffert encaminha correspondências para deputados e autoridades, manifestando seu apoio e ressaltando a importância da obra para a população de Montenegro e Vale do Caí.
CONCLUSÃO DA EMPRESA
A licitação aberta pelo Governo do Estado, para elaborar serviço de consultoria referente à primeira etapa do projeto, é vencida pela empresa Profill, que realizou estudos entre 2003 e 2007. Em seu relatório de conclusão, a empresa relata que “o canal extravasor é uma solução apenas parcial para as enchentes”, e indica que seria mais recomendável a “adoção de medidas não-estruturais para a mitigação das enchentes”. De acordo com os cálculos da empresa, a construção de um canal custaria cerca de R$ 9 milhões.
A Profill entende que “a remoção de famílias das áreas alagáveis, apesar de sofrer resistência das próprias populações atingidas, ser relativamente cara, é significativamente mais barata que o canal extravasor”. Outra solução apresentada pela consultora é a “previsão antecipada de cheias”, porém lembra que com as “duas leituras diárias” realizadas atualmente, não seria possível.
SOLUÇÃO NECESSÁRIA
Seja com a construção de um canal extravasor, ou com adoção de outras medidas, como transferência dos moradores das áreas de risco, ou estabelecendo um sistema de previsão de cheias, com um plano de evasão da população ameaçada, o certo que o Poder Público não pode mais se abster de buscar uma solução que amenize os danos e prejuízos financeiros causados pelas enchentes que atingem Montenegro a cada precipitação mais acentuada de chuva. Torna-se inadiável a ação governamental no sentido de tomar as medidas necessárias, que se não eliminarão, pelo menos poderão reduzir os efeitos das cheias.
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