Quais foram as razoes da guerra? Quais façanhas dos Farrapos devem ‘servir de modelo a toda a Terra’, como diz o Hino Rio-grandense? Que imagem do Rio Grande do Sul tem uma pessoa nascida em outro estado? A seguir, as respostas.
Por JB Cardoso
Há 174 anos, em 20 de setembro de 1835, riograndenses descontentes com o tratamento dispensado pelo Império à província de São Pedro do Rio Grande do Sul invadem Porto Alegre e dão início à maior guerra civil travada em solo brasileiro. Por dez anos a pampa gaúcha foi palco de combates entre os revoltosos, apelidados de ‘Farrapos’ devido ao estado de seus uniformes, e as tropas imperiais. A paz foi selada em 1845, em Ponche Verde, depois que o Duque de Caxias assumiu o comando das tropas no Sul.
Para os rio-grandenses a Revolução Farroupilha é mais que um fato histórico. O ‘Decênio Histórico’ – como ficou conhecido aquele período – representa a afirmação do orgulho gaúcho.
OS MOTIVOS
As causas, de acordo com o tradicionalista Flávio Patrício Vargas, foram bem maiores que o descontentamento com a sobretaxa do charque, como contam os livros de História. “A questão do charque foi o motivo econômico”, explica. Vargas ressalta que havia na época, um abandono da província por parte do governo imperial. “Não tinha escola, nem estradas, nem pontes, um abandono total”, enumera. Os estancieiros queriam uma contrapartida pelo empenho que tinham com a guarda das fronteiras. “Por 200 anos, os donos das terras defenderam os interesses portugueses, e não tinham o respeito que mereciam”, explica.
No campo político, crescia o sentimento republicano, influenciado pelas experiências européias (sobretudo da França) e dos Estados Unidos, que já haviam declarado sua independência, tornando-se uma república. “A autonomia dos estados, tal qual nos EUA, era o sonho dos republicanos do Sul”, ensina Vargas, lembrando que as idéias eram disseminadas pelos maçons da época. Porém, o grande líder farrapo não queria a república. “Bento Gonçalves era imperialista, só exigia mais respeito para a província. Mas traiu a si próprio para não trair seus companheiros, ao contrário de Bento Manuel Ribeiro, que para não abandonar suas idéias, traiu a todos”, relata Flávio. Foram os ideais republicanos que atraíram outros líderes para a Revolução, como os italianos Garibaldi e Tito Lívio.
MODELO
O Hino Rio-grandense fala das façanhas dos Farrapos. Mas qual das façanhas do ‘Decênio Heróico’ pode servir, hoje, de ‘modelo a toda a Terra’? Para o tradicionalista Claudio Braga, o que falta hoje é a “fibra guerreira”. Segundo ele, “estamos muito calmos. Naquela época, uma denúncia como esta contra o Governo do Estado, já teria gerado uma reação, e todos seriam depostos”. Falta, de acordo com Braga, o grito de “basta!”. “Temos que começar outra revolução, com uma nova postura nacional”, opina.
Claudio Braga entende que a cultura pode ser a arma desta revolução moderna. “Cada invernada, cada piquete, DTG ou CTG representa esta história, que é a principal façanha gaúcha”.
IMAGEM
Para pessoas de outros estados, que vivem ou viveram no Rio Grande do Sul, a imagem do gaúcho sempre impressiona. Seja pela cultura, pelo orgulho de pertencer a um povo guerreiro, pelas posições firmes, o povo riograndense é admirado pelos ‘estrangeiros’ que passam pelo estado.
Fernando Ribeiro é paulista, criado no Rio de Janeiro e na Bahia. Há cinco anos está radicado no Rio Grande do Sul, e não esconde a satisfação em participar de eventos que evocam a cultura gaúcha. “Ser gaúcho é amar o Rio Grande do Sul, é ter noção da História e da cultura deste estado maravilhoso! Apesar de não ter nascido no RS, me considero ‘gaúcho’, pois, além de degustar um ‘amargo’, uso minha bombacha com botas e, quando posso, estou presente em eventos como a Semana Farroupilha”, declara.
O carioca Marcelo Francisco de Mello viveu por anos no estado, e trabalhou na empresa Tanac. Ele conta que aprendeu que “existe uma outra Pátria, a Pátria Gaúcha”. Segundo ele, “é de impressionar o orgulho deste povo, o orgulho de ser Gaúcho, de ser colorado ou gremista, de ostentar o pavilhão "nacional" - a bandeira do Rio Grande do Sul, Tchê”.
“Neste Estado querido e que aprendi a amar, deixei uma semente, um filho que amo muito e mora em Cruz Alta, no centro do estado, este ano vai completar 8 anos. E este piá adora as coisas do Sul”, continua o carioca, que atualmente está radicado no interior de São Paulo.
Ele define que “ser Gaúcho é ter orgulho de si mesmo, ter orgulho da sua terra, da sua história. Ser gaúcho não é simplesmente usar roupas típicas, beber chimarrão ou simplesmente dizer que ama a sua terra. O verdadeiro gaúcho ama a sua pátria sim, por que em primeiro lugar vem o Rio Grande, em segundo o seu time de coração (ah, nada mais delicioso do que assistir a um Gre-nal no Beira Rio (eu mesmo fui a dois)). Ser gaúcho é ser Internacional ou Grêmio, e em terceiro é ser Brasileiro, por que para o Gaúcho ser brasileiro é um detalhe, pois a verdadeira pátria é a Gaúcha. Me sinto feliz de ter conhecido esta terra, de poder viver com este povo durante oito anos, espero um dia poder voltar ao seio desta amada pátria, deste estado que acima de tudo se orgulha de ser o que é, e o que representa”.
E, unindo duas paixões bem gaúchas, Marcelo Mello finaliza: “Glória do desporto nacional, glória da cultura, pois até a pé nós iremos, onde for, para o que der e vier. Viva o Rio Grande do Sul!!!!!”
“O povo que se formou aqui, não foi por demarcações geográficas de fronteira, mas pelo calor do fogo dos acampamentos militares, marcando estas fronteiras a ponta de lança e pata de cavalo”. Flávio Patrício Vargas.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
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